sábado, 8 de agosto de 2026

Relato: O homem do meu sonho queria que eu me casasse com ele

 

Meu nome é Helena, tenho 34 anos e isso aconteceu no começo deste ano. Resolvi contar porque, depois de algumas coisas que aconteceram, comecei a olhar para aquele sonho de uma maneira diferente.

E talvez eu esteja juntando coisas que não têm relação nenhuma. Eu sei disso.

Nunca fui uma pessoa muito ligada a assuntos sobrenaturais. Gosto de fantasia, já li livros com fadas, elfos e essas coisas, mas sempre coloquei tudo na mesma categoria de dragões e sereias. Coisas bonitas para histórias.

Por isso não pensei em elfos quando tive o sonho.

Na verdade, quando acordei, minha primeira impressão foi que eu tinha sonhado com um casamento.

Só que foi o sonho mais realista que já tive.

Eu estava em um lugar que parecia um jardim enorme, mas não consigo dizer se era realmente ao ar livre. Havia árvores muito altas em volta, com troncos claros, quase prateados, e entre os galhos apareciam milhares de pequenas luzes.

Não pareciam lâmpadas.

Também não pareciam exatamente estrelas.

Era como se a própria folhagem tivesse pontos luminosos.

O chão tinha uma espécie de caminho de pedras claras e havia flores brancas por toda parte. Algumas eram parecidas com lírios, outras eu nunca vi na vida. Lembro especialmente de umas flores pequenas azuladas que brilhavam muito discretamente quando o vento passava.

O detalhe estranho é que eu conseguia sentir o cheiro delas.

Era um perfume fresco, um pouco doce, mas também lembrava terra molhada depois da chuva.

Eu estava usando um vestido comprido.

Não era um vestido de noiva tradicional. Era verde muito claro, quase branco, com bordados dourados nas mangas e na cintura. Meu cabelo estava preso de um jeito que eu nunca saberia fazer sozinha, com pequenas flores e alguma coisa parecida com fios de ouro.

E eu estava feliz.

Isso é importante.

Eu não estava sendo obrigada a estar ali. Pelo contrário. Eu sentia uma felicidade enorme, daquelas que dão vontade de rir sem motivo.

Havia pessoas em volta.

Ou pelo menos pareciam pessoas.

Todos eram muito elegantes, vestidos com roupas compridas, em cores verdes, cinzas, azuis e douradas. Alguns conversavam baixo. Outros simplesmente me observavam.

Nenhum deles parecia assustador.

Mas havia alguma coisa diferente nos rostos.

Eles eram bonitos demais.

Não bonitos como modelos ou atores. Era uma beleza estranha, muito simétrica, delicada. Alguns tinham cabelos compridos, homens e mulheres. Outros usavam penteados presos com folhas ou pequenos adornos metálicos.

Eu não reparei nas orelhas.

Isso é engraçado porque, depois que comecei a pesquisar sobre elfos, fiquei tentando lembrar se eram pontudas. Não consigo.

No sonho aquilo não me chamou atenção.

Então vi o homem que estava me esperando.

Ele era alto e muito magro. Tinha cabelo castanho-claro, comprido até mais ou menos os ombros, e olhos de uma cor que eu não sei definir. Às vezes pareciam verdes, às vezes cinzentos.

Ele usava uma roupa escura, talvez azul-marinho, com detalhes prateados.

Quando me viu, sorriu.

E eu conhecia aquele homem.

Não sei explicar de outro jeito.

Eu nunca vi aquela pessoa acordada, mas dentro do sonho eu tinha lembranças dele. Eu sabia como era andar ao lado dele. Sabia como ele ria. Sabia que gostava quando eu prendia o cabelo.

Parecia que tínhamos uma história inteira juntos que desapareceu quando acordei.

Ele estendeu a mão.

Eu segurei.

A mão dele estava fria.

Caminhamos até uma espécie de círculo formado por pedras e flores. No centro havia uma mulher muito velha usando um vestido cinza. Ela segurava um ramo de alguma planta nas mãos.

Não lembro exatamente do que ela falou.

Essa é uma das partes frustrantes.

Eu sabia que ela estava realizando uma cerimônia de casamento, mas as palavras pareciam ser em outro idioma. Mesmo assim eu entendia tudo enquanto estava lá.

Havia música também.

Instrumentos de corda, principalmente.

Era lindo.

Em determinado momento, olhei para as pessoas ao redor e tive uma sensação estranha.

Todas estavam sorrindo.

Só que ninguém desviava os olhos de mim.

Foi aí que minha felicidade começou a se misturar com desconfiança.

Olhei novamente para o homem.

Ele continuava sorrindo.

Então perguntou:

— Você aceita permanecer comigo?

Não perguntou exatamente "você aceita se casar comigo".

Foi isso.

"Você aceita permanecer comigo?"

Eu senti um arrepio.

Não de medo.

Foi mais aquela sensação de perceber que existe alguma coisa numa situação que você ainda não entendeu.

Perguntei:

— Permanecer onde?

Ele riu baixinho.

Não respondeu.

A mulher idosa estendeu o ramo na nossa direção e todas aquelas pessoas ficaram em silêncio.

Então ele segurou minhas duas mãos.

Lembro perfeitamente do rosto dele naquele momento.

Ele parecia feliz.

Mas também ansioso.

Como alguém esperando uma resposta muito importante.

— Diga que sim — ele falou.

Eu queria dizer.

Essa talvez seja a parte que mais me incomoda.

Eu realmente queria.

Olhei em volta para aquele jardim iluminado, para as árvores, para aquelas pessoas bonitas, para o vestido que eu estava usando. Eu me sentia absurdamente feliz ali.

Ao mesmo tempo, alguma coisa dentro de mim dizia:

"Pergunta primeiro."

Então perguntei:

— Se eu disser sim, o que acontece?

O sorriso dele desapareceu.

Não de uma maneira ameaçadora.

Ele ficou triste.

Foi uma tristeza tão genuína que até hoje lembro.

Ele apertou minhas mãos e disse:

— Você já sabe.

Eu ia responder.

Abri a boca.

E acordei.

Estava na minha cama, de madrugada, com o coração disparado.

Fiquei alguns segundos completamente perdida porque meu quarto parecia o lugar errado.

Essa sensação passou rápido.

Peguei o celular.

Eram 4h17.

Levantei para beber água e percebi uma coisa ridícula: fiquei procurando meu vestido verde.

Durante alguns segundos achei que ele estaria jogado em algum lugar do quarto.

Depois comecei a rir de mim mesma.

Voltei a dormir.

No dia seguinte contei o sonho para uma colega do trabalho. Nós brincamos que meu cérebro tinha inventado um marido perfeito e, mesmo assim, eu consegui desconfiar dele.

A vida continuou.

Uns quatro ou cinco dias depois aconteceu a primeira coisa estranha.

Eu estava sozinha em casa preparando café quando ouvi alguém chamar:

— Helena.

Foi baixo.

Mas ouvi meu nome claramente.

Veio da direção do corredor.

Parei imediatamente.

Meu primeiro pensamento foi que minha irmã tivesse chegado e eu não tivesse ouvido a porta.

Fui olhar.

Não tinha ninguém.

Chequei a porta. Estava trancada.

Também olhei pela janela, pensando que alguém pudesse ter chamado do prédio ao lado.

Nada.

Aquilo me incomodou durante alguns minutos, mas depois esqueci.

Dois dias mais tarde aconteceu de novo.

Dessa vez eu estava sentada no sofá mexendo no celular.

Ouvi meu nome bem perto.

Não parecia a voz do homem do sonho. Pelo menos não tenho certeza.

Só sei que era uma voz masculina.

Virei tão rápido que derrubei o celular.

Não havia ninguém.

Foi aí que comecei a ficar desconfortável.

Mas o pior aconteceu numa noite da semana seguinte.

Eu estava na cozinha lavando uma caneca antes de dormir.

Minha cozinha é pequena e fica muito silenciosa à noite.

De repente senti alguém respirando atrás de mim.

Não foi vento.

Não foi impressão de ouvir alguma coisa distante.

Era respiração.

Pesada.

Bem próxima da minha nuca.

Meu corpo inteiro arrepiou.

Fiquei imóvel.

A respiração aconteceu mais uma vez.

Eu senti o ar.

Virei imediatamente.

Não tinha ninguém.

Saí da cozinha e acendi praticamente todas as luzes do apartamento.

Naquela noite demorei muito para dormir.

Foi depois disso que fiz uma coisa que talvez tenha piorado tudo.

Comecei a pesquisar.

Primeiro procurei sobre sonhos extremamente realistas com desconhecidos. Depois sobre sonhos de casamento. Em algum momento encontrei postagens de pessoas falando sobre encontros em sonhos com seres feéricos.

Foi assim que cheguei aos elfos.

Eu sabia o que eram elfos na fantasia, obviamente, mas nunca tinha pesquisado sobre tradições e histórias relacionadas a seres semelhantes.

Passei uma madrugada inteira lendo.

Encontrei relatos modernos, interpretações esotéricas e referências a diferentes tradições folclóricas. Não estou dizendo que tudo aquilo é verdadeiro, muita coisa na internet mistura folclore antigo com ideias bem recentes, mas algumas descrições me deixaram desconfortável.

Principalmente histórias sobre seres feéricos aparecendo como pessoas extremamente belas e sobre promessas, convites ou vínculos feitos em sonhos.

Então lembrei da pergunta dele.

"Você aceita permanecer comigo?"

Eu não disse sim.

Acordei antes.

E desde então fico pensando se isso teve alguma importância.

Talvez tenha sido apenas um sonho muito elaborado e, depois dele, eu tenha ficado impressionável. A voz pode ter sido algum barulho que meu cérebro transformou no meu nome. A respiração pode ter sido corrente de ar, embora eu sinceramente não saiba de onde teria vindo.

Existe explicação para quase tudo.

Só existe uma coisa que ainda me incomoda.

Às vezes sinto aquele perfume.

O das flores do casamento.

Aconteceu três vezes.

Sempre dentro de casa.

É um cheiro doce, fresco, misturado com terra molhada.

Na última vez eu estava deitada e senti o perfume vindo do corredor.

Não levantei para olhar.

Fiquei quieta.

Depois de alguns segundos, ouvi um barulho muito leve perto da porta do quarto.

Como se alguém tivesse encostado a ponta dos dedos na madeira.

Três toques.

Esperei.

Não aconteceu mais nada.

Eu não sei se acredito que aquele homem fosse um elfo. Na verdade, escrever isso me faz sentir um pouco boba.

Mas comecei a desconfiar.

E tem outra coisa que não contei para ninguém.

Algumas noites, quando estou quase dormindo, tenho a sensação de que vou voltar para aquele jardim.

Não chego a sonhar.

Só aparecem imagens rápidas.

As árvores claras.

As luzes entre as folhas.

As flores azuis.

E ele.

Sempre parado no mesmo lugar onde me esperava para o casamento.

Não parece zangado.

Não parece ameaçador.

Ele só espera.

E, por algum motivo, tenho a impressão de que a cerimônia ainda não terminou.

Como se, para ele, eu não tivesse recusado.

Eu apenas ainda não respondi.

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