Altos, belos e quase imortais. Donos de cabelos longos, orelhas pontudas e uma sabedoria acumulada ao longo de milhares de anos. Vivem escondidos nas florestas, dominam a magia e o arco, falam línguas próprias e pertencem a povos organizados em reinos e linhagens antigas.
Se alguém pedir que você imagine um elfo, é bastante provável que alguma versão dessa figura apareça em sua mente.
Mas existe um problema.
Esse não é simplesmente o elfo das antigas tradições europeias.
A imagem que hoje consideramos tipicamente “élfica” foi profundamente moldada pela literatura fantástica moderna, sobretudo pela obra de J. R. R. Tolkien e por autores, jogos, filmes e universos ficcionais posteriores que desenvolveram modelos semelhantes.
Os elfos encontrados nas fontes medievais germânicas e nórdicas são muito mais difíceis de definir.
Eles podiam estar associados à beleza, à alteridade, ao poder sobrenatural e, em determinadas fontes, às doenças. Na Escandinávia medieval aparecem próximos de deuses e outras categorias de seres. Na Inglaterra anglo-saxônica, podiam ser mencionados em textos médicos e encantamentos.
E, ao contrário do que acontece em muitos universos modernos de fantasia, as fontes não nos entregam uma descrição completa de sua sociedade.
Para descobrir quem eram os elfos antes da fantasia moderna, portanto, precisamos abandonar por algum tempo as florestas de Tolkien e entrar em um território muito mais nebuloso.
O território do folclore, da língua e dos manuscritos medievais.
Antes de tudo: não existia um único “elfo antigo”
A primeira armadilha é imaginar que todos os povos germânicos compartilhavam exatamente a mesma crença sobre os elfos.
Não temos evidências para afirmar isso.
Encontramos palavras aparentadas em diferentes línguas germânicas, como álfr, no nórdico antigo, e ælf, no inglês antigo. Isso demonstra uma história linguística muito antiga, mas não significa que escandinavos e anglo-saxões de diferentes séculos necessariamente imaginassem esses seres da mesma maneira.
O historiador e linguista Alaric Hall, um dos principais pesquisadores modernos do tema, adverte justamente contra a prática de pegar informações das fontes escandinavas e simplesmente aplicá-las aos elfos anglo-saxões. As tradições são relacionadas, mas precisam ser analisadas dentro de seus próprios contextos.
Além disso, existe outro problema.
Grande parte daquilo que sabemos sobre a mitologia nórdica foi registrada por escrito depois da cristianização da Escandinávia. Algumas obras preservam materiais muito mais antigos, mas foram compostas ou registradas em contextos medievais cristãos.
Isso significa que precisamos usar essas fontes com cuidado.
Elas são preciosas.
Mas não são fotografias intactas da religião da Era Viking.
Os álfar do mundo nórdico
Nas fontes em nórdico antigo encontramos os álfar, singular álfr.
Eles certamente pertenciam ao universo sobrenatural dos povos escandinavos, mas reconstruir exatamente o que eram não é simples.
Em alguns textos, aparecem linguisticamente próximos dos deuses. A conhecida expressão “Æsir e álfar”, encontrada na poesia nórdica, coloca essas duas categorias lado a lado.
Isso sugere que os álfar ocupavam uma posição significativa no imaginário sobrenatural.
Mas significativa não significa claramente definida.
As fontes mais antigas não nos oferecem algo semelhante a uma enciclopédia dizendo:
“Os elfos vivem tantos anos, possuem estas características físicas, organizam-se desta maneira e utilizam estes tipos de magia.”
Esse tipo de construção detalhada pertence muito mais à literatura fantástica moderna.
Alaric Hall observa que as evidências escandinavas mais antigas apontam principalmente para álfar masculinos. Ele também ressalta que os escritos de Snorri Sturluson, embora fundamentais para nosso conhecimento da mitologia nórdica, não podem ser utilizados sem cautela para reconstruir as concepções mais antigas sobre os elfos.
Em outras palavras, quanto mais tentamos encontrar uma definição rígida do “elfo viking”, mais percebemos que as fontes não colaboram.
E talvez isso diga alguma coisa importante sobre esses seres.
Eles pertenciam a um universo sobrenatural no qual as categorias nem sempre possuíam as fronteiras exatas que os leitores modernos gostariam de encontrar.
Elfos claros e elfos escuros?
Uma das classificações mais famosas aparece na Edda em Prosa, de Snorri Sturluson.
Ali encontramos referências aos ljósálfar, geralmente traduzidos como “elfos claros”, e aos dökkálfar, “elfos escuros”. Também aparece o termo svartálfar, literalmente algo como “elfos negros”.
Essa classificação é irresistível para leitores modernos.
Parece o começo perfeito de um sistema fantástico:
elfos da luz de um lado, elfos sombrios do outro.
Não é difícil perceber por que essa ideia se tornou tão popular.
Mas existe um problema histórico: os estudiosos não podem simplesmente assumir que Snorri esteja preservando uma classificação pagã antiquíssima exatamente como ela existia séculos antes.
A obra foi escrita na Islândia cristã do século XIII, e as categorias empregadas por Snorri apresentam dificuldades interpretativas. Alaric Hall chega a considerar problemático utilizar Snorri como ponto de partida seguro para reconstruir as concepções escandinavas mais antigas dos álfar.
Portanto, é melhor evitar uma afirmação muito comum na internet:
“Os vikings acreditavam em duas raças de elfos: elfos da luz e elfos negros.”
Isso transforma uma fonte medieval complexa em uma espécie de manual de RPG.
Podemos dizer que Snorri apresenta essas categorias.
Não podemos concluir automaticamente que todos os escandinavos pagãos, durante séculos, compartilhavam exatamente esse sistema.
Alfheim: o reino dos elfos?
Outro nome familiar aos amantes da mitologia nórdica é Álfheimr, normalmente traduzido como “mundo” ou “terra dos elfos”.
Na poesia eddica, Álfheimr é associado a Freyr, importante divindade nórdica.
Esse detalhe contribuiu para inúmeras interpretações sobre uma possível relação entre elfos, fertilidade e o deus Freyr.
É uma associação interessante, mas novamente precisamos resistir à tentação de preencher as lacunas das fontes com certezas modernas.
A mitologia nórdica que chegou até nós é fragmentária.
Sabemos o suficiente para perceber que os elfos eram importantes.
Não sabemos o suficiente para desenhar um mapa completo de sua civilização.
O Álfheimr antigo, portanto, não deve ser automaticamente imaginado como um reino élfico semelhante aos grandes reinos élficos encontrados na fantasia contemporânea.
A paisagem detalhada que nossa imaginação deseja enxergar simplesmente não está preservada nas fontes.
E os elfos da Inglaterra anglo-saxônica?
Atravessemos agora o mar.
Na Inglaterra anterior à conquista normanda encontramos o termo ælf, ancestral da palavra inglesa moderna elf.
E aqui os elfos tornam-se ainda mais interessantes.
O estudo das evidências linguísticas indica que os ælfe possuíam uma posição relevante na cultura anglo-saxônica. O elemento ælf aparece inclusive em nomes pessoais, algo que ajuda os pesquisadores a compreender a antiguidade e a importância cultural do conceito.
Nomes como Ælfric e Ælfred preservam esse elemento.
O segundo deles chegou até nós em uma forma muito conhecida:
Alfred.
Isso já deveria nos fazer desconfiar da ideia de que o elfo fosse simplesmente um monstrinho insignificante escondido no bosque.
Mas existe um lado mais sombrio.
Quando os elfos podiam causar doenças
Entre as evidências anglo-saxônicas encontramos textos médicos nos quais os elfos aparecem associados a enfermidades.
Esse é um aspecto particularmente importante da pesquisa de Alaric Hall: as crenças relacionadas aos ælfe aparecem no contexto da compreensão e do tratamento de doenças.
Para uma pessoa medieval, é claro, as fronteiras entre medicina, religião e aquilo que hoje chamaríamos de magia ou superstição não eram necessariamente iguais às nossas.
Doenças misteriosas podiam receber explicações sobrenaturais.
E os elfos faziam parte desse universo.
É desse conjunto de tradições que se costuma aproximar a famosa ideia do “elf-shot”, expressão que posteriormente ficou associada a dores súbitas ou doenças atribuídas a ataques de seres sobrenaturais.
Isso nos leva a uma imagem muito diferente do arqueiro elegante da fantasia.
O arco permanece curiosamente próximo da história do elfo, mas agora a flecha não está sendo disparada contra orcs.
Está sendo imaginada como causa invisível do sofrimento humano.
Então os antigos tinham medo dos elfos?
Às vezes, provavelmente.
Mas dizer apenas que “elfos eram criaturas malignas” seria cometer o erro oposto.
As evidências são mais complexas.
Elfos podiam estar relacionados a perigo e enfermidade, mas também encontramos associações com beleza e atração. A pesquisa sobre os ælfe anglo-saxões mostra justamente que suas representações estavam relacionadas também a questões de sexo e gênero.
Essa combinação é reveladora.
O sobrenatural nem sempre precisa ser horrível para ser perigoso.
Às vezes é justamente sua beleza que representa o perigo.
Essa ambiguidade sobreviveria durante muito tempo nas tradições europeias relacionadas a elfos e fadas: seres capazes de fascinar e ameaçar simultaneamente.
Você talvez não quisesse encontrar um deles.
Mas talvez também não conseguisse desviar os olhos se encontrasse.
Elfos e fadas eram a mesma coisa?
Essa pergunta parece simples.
Historicamente, não é.
As palavras e categorias relacionadas a elfos e fadas mudaram muito durante a Idade Média e o início da Idade Moderna.
O historiador Ronald Hutton estudou justamente a formação da tradição feérica britânica entre os séculos XII e XVII. Segundo sua análise, as fontes mostram uma transformação gradual: representações inicialmente variadas e pouco unificadas deram lugar, durante a Idade Média tardia, a uma ideia mais coerente de um povo ou reino feérico. Depois da Reforma, o interesse pela natureza das fadas tornou-se ainda mais intenso.
Portanto, não existe uma linha perfeitamente reta:
elfo pagão → fada medieval → elfo moderno.
O que existe é uma longa história de encontros, transformações e sobreposições entre palavras, crenças populares e tradições literárias.
Em determinados períodos, “elfo” e “fada” puderam aproximar-se bastante.
Em outros contextos, não eram exatamente equivalentes.
E as pequenas fadas com asas?
Aqui entramos em outra transformação.
Quando pensamos em fadas atualmente, podemos imaginar criaturas minúsculas com asas de borboleta vivendo entre flores.
Essa não é uma descrição universal das fadas do folclore antigo.
Da mesma maneira, o elfo pequeno e travesso, semelhante aos ajudantes do Papai Noel também representa apenas uma etapa específica da longa transformação cultural desses seres.
Ao longo dos séculos, literatura, teatro, poesia, ilustração e folclore modificaram continuamente sua aparência.
Os seres sobrenaturais diminuíram.
Ganharam asas.
Entraram nos jardins.
Foram associados às crianças.
Em outros contextos, tornaram-se ajudantes domésticos alegres.
Enquanto isso, outra transformação estava prestes a acontecer.
O elfo voltaria a crescer.
E dessa vez se tornaria uma das figuras mais importantes da fantasia moderna.
Tolkien não simplesmente “copiou” os elfos antigos
Nenhuma discussão sobre o elfo moderno pode ignorar J. R. R. Tolkien.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que Tolkien foi profundamente inspirado pelas tradições antigas e afirmar que seus elfos são simplesmente os elfos da mitologia nórdica colocados em um romance.
Não são.
Tolkien era filólogo e professor universitário, com profundo conhecimento de inglês antigo, inglês médio, nórdico antigo, gótico e outras línguas e literaturas medievais. Seu conhecimento dessas tradições influenciou intensamente sua criação literária.
Mas a Terra-média é uma criação literária.
Tolkien desenvolveu povos élficos com histórias, genealogias, conflitos, migrações, culturas e línguas próprias.
Aliás, as línguas élficas são fundamentais para compreender seu processo criativo. Tolkien trabalhou durante décadas no desenvolvimento de idiomas como Quenya e Sindarin, e a criação linguística esteve profundamente ligada ao nascimento de seu legendário.
Seus elfos não são uma simples transcrição de uma crença medieval.
São uma extraordinária recriação literária moderna alimentada por materiais antigos.
O nascimento do elfo que conhecemos hoje
A influência posterior dessa recriação foi imensa.
Depois de Tolkien, a imagem do elfo alto, belo, longevo, mágico e pertencente a uma civilização antiga tornou-se extremamente poderosa dentro da fantasia.
Outros escritores desenvolveram suas próprias versões.
Jogos de interpretação criaram povos e subtipos élficos.
Videogames deram aos elfos reinos, classes, poderes e características físicas facilmente reconhecíveis.
Cinema e televisão espalharam essa iconografia para milhões de pessoas.
Pouco a pouco, uma construção literária moderna passou a parecer tão familiar que começou a ser projetada para trás.
E então surgiu um curioso efeito:
quando lemos a palavra “elfo” em uma tradução de um texto medieval, nossa mente automaticamente coloca ali uma criatura que o autor medieval jamais descreveu daquela maneira.
As orelhas pontudas
Talvez nenhum detalhe demonstre isso tão bem quanto as famosas orelhas.
Hoje elas funcionam quase como uma identificação biológica.
Humano + orelhas pontudas = elfo.
Mas procurar nas antigas fontes germânicas uma descrição padronizada dizendo que todos os elfos possuíam aquelas longas orelhas pontudas típicas dos jogos e filmes modernos será frustrante.
Essa característica visual tornou-se extraordinariamente importante na iconografia moderna.
Nas fontes antigas, porém, não temos um catálogo anatômico dos elfos.
Não sabemos a altura média dos álfar.
Não sabemos o formato exato de suas orelhas.
Não sabemos se todos possuíam determinada cor de olhos.
Não sabemos quantos séculos viviam.
Muitas das perguntas que um manual moderno de fantasia responderia simplesmente não eram perguntas que as fontes medievais estavam tentando responder.
Elfos eram imortais?
Outro elemento fortemente associado aos elfos modernos é a longevidade.
Em algumas fantasias, vivem séculos.
Em outras, milhares de anos.
Em Tolkien, possuem uma relação com a mortalidade profundamente diferente da dos humanos.
Mas novamente não devemos transformar uma característica de uma mitologia literária moderna em regra universal do folclore germânico.
As fontes antigas tratam os elfos como seres sobrenaturais.
Isso não significa que possamos montar uma ficha dizendo:
Expectativa de vida: 2.000 anos.
A própria necessidade de estabelecer números exatos pertence muito mais à construção sistemática de mundos ficcionais do que ao funcionamento das antigas crenças folclóricas.
Elfos viviam necessariamente nas florestas?
A floresta tornou-se praticamente inseparável do elfo moderno.
Mas não existe uma regra folclórica universal segundo a qual “elfos são espíritos das florestas”.
Seres sobrenaturais associados a paisagens naturais aparecem abundantemente nas tradições europeias, e desenvolvimentos posteriores aproximaram diferentes entidades de bosques, montanhas, colinas e lugares selvagens.
Mas reduzir o antigo elfo germânico simplesmente a um espírito elemental da floresta é enganoso.
Da mesma forma, sistemas ocultistas contemporâneos podem estabelecer correspondências entre elfos e determinados elementos da natureza.
Essas correspondências podem ser perfeitamente válidas dentro das tradições espirituais modernas que as utilizam, mas não devem ser apresentadas automaticamente como crenças documentadas da Escandinávia pagã ou da Inglaterra anglo-saxônica.
Existiam reis e rainhas dos elfos?
Aqui novamente precisamos separar épocas.
A ideia de uma corte sobrenatural, com reis e rainhas das fadas, tornou-se extremamente importante na tradição britânica medieval e moderna.
Mas o historiador Ronald Hutton mostra que essa concepção de um reino feérico coerente é resultado de um desenvolvimento histórico. As representações britânicas passaram de uma diversidade pouco organizada para uma noção mais definida de uma coletividade ou reino das fadas durante a Idade Média tardia.
Portanto, encontrar uma rainha das fadas em uma obra medieval tardia não significa que os povos germânicos muitos séculos antes necessariamente imaginassem os ælfe ou álfar vivendo sob a mesma monarquia sobrenatural.
O reino das fadas também tem história.
O problema das sagas
As sagas islandesas e outras narrativas nórdicas são irresistíveis para quem pesquisa seres sobrenaturais.
Mas é necessário observar quando foram escritas.
As chamadas fornaldarsögur, ou “sagas dos tempos antigos”, narram acontecimentos situados no passado lendário escandinavo. Entretanto, muitas foram compostas séculos depois do período em que suas histórias supostamente acontecem.
Essas obras combinam tradições heroicas, elementos folclóricos, literatura medieval e influências diversas. Estudos recentes destacam justamente seu caráter híbrido e suas relações tanto com materiais nórdicos quanto com tradições literárias europeias.
Isso não torna as sagas inúteis.
Muito pelo contrário.
Significa apenas que devemos evitar a frase:
“Essa saga prova exatamente no que os vikings acreditavam.”
Ela pode preservar tradições antigas.
Também pode preservar transformações posteriores.
Normalmente, o trabalho histórico consiste justamente em tentar distinguir essas camadas.
O que podemos dizer com alguma segurança?
Depois de tantas ressalvas, pode parecer que não sabemos absolutamente nada sobre os elfos antigos.
Sabemos.
As palavras que deram origem ao nosso “elfo” são antigas dentro das línguas germânicas. Os álfar aparecem nas tradições escandinavas medievais; os ælfe aparecem nas evidências anglo-saxônicas. Eles pertenciam ao universo sobrenatural e podiam ocupar posições importantes nele. Na Inglaterra anglo-saxônica, aparecem associados inclusive a explicações e tratamentos de doenças. Nas fontes escandinavas, encontramos relações complexas entre elfos e outras categorias sobrenaturais.
Também sabemos que essas concepções mudaram.
Elfos aproximaram-se de fadas.
Tradições folclóricas encontraram tradições literárias.
O cristianismo modificou a maneira como antigos seres sobrenaturais eram interpretados. No caso anglo-saxônico, Hall argumenta inclusive que a associação dos ælfe com monstros e demônios em Beowulf pode refletir processos de demonização posteriores à cristianização.
Séculos depois, escritores voltariam a transformar os elfos.
E então Tolkien realizou uma das mais influentes dessas transformações.
Elfo antigo x elfo moderno
Se colocássemos as duas imagens lado a lado, a diferença seria enorme.
O elfo moderno da fantasia costuma possuir aparência claramente definida, orelhas pontudas, longevidade extraordinária, cultura própria, afinidade com florestas ou magia, habilidade com arco e uma sociedade organizada em povos e reinos.
O elfo das fontes medievais, por outro lado, é muito mais difícil de capturar.
Ele aparece em fragmentos.
Em palavras.
Em poemas.
Em nomes de pessoas.
Em textos médicos.
Em narrativas escritas séculos depois da cristianização.
Em relações obscuras com deuses e outros seres.
É menos uma espécie fantástica perfeitamente catalogada e mais uma presença sobrenatural cuja natureza varia conforme época, região e fonte.
E talvez seja exatamente isso que o torne tão fascinante.
O verdadeiro elfo é mais estranho que o da fantasia
Estamos acostumados a mundos em que basta olhar para alguém para saber que encontramos um elfo.
As orelhas denunciam.
No mundo das antigas tradições, talvez a pergunta fosse muito mais inquietante.
E se não fosse possível reconhecer?
E se o ser encontrado no caminho parecesse belo demais, estranho demais ou simplesmente diferente de uma maneira impossível de explicar?
E se uma doença repentina fosse atribuída a uma força invisível?
E se antigas palavras preservassem a memória de seres cuja mitologia completa já havia desaparecido antes mesmo de alguém decidir registrá-la?
O elfo antigo escapa das nossas classificações justamente porque recebemos apenas fragmentos de seu mundo.
A fantasia moderna fez algo diferente.
Pegou esses fragmentos, misturou-os a séculos de literatura e imaginação e construiu povos que podemos conhecer intimamente. Podemos aprender suas línguas, estudar suas genealogias, desenhar seus mapas e conhecer seus reis.
O folclore raramente nos oferece esse conforto.
Seus elfos permanecem parcialmente escondidos.
E talvez exista algo poeticamente apropriado nisso.
Depois de mais de mil anos, continuamos tentando descobrir quem eles eram.
Mas, sempre que pensamos tê-los finalmente encontrado, eles desaparecem novamente entre as árvores da história.©